Essa semana rendeu muitos comentários e exigiu reflexões…
Um dia, assim daqueles que não se espera nenhum e-mail novo, estava eu vagando pelas ondas da Internet.
Na caixa de entrada uma mensagem do Rayllei Bandeira, um amigo da faculdade (agora nem nos vemos muito, mas gosto mesmo assim).
Resolvi reproduzir a mensagem para tornar público e promover o debate.
Liberdade de expressão?!
É revoltante! Vivemos num país onde as idéias contrárias à “default” não têm vez, nem voz.
Calaram várias bocas neste último final de semana.
Concordar ou não, isso não interessa. O que interessa é a liberdade de expressão, de discussão.
Veja estes vídeos:
Homem é preso durante marcha em prol da maconha
CQC Rede Bandeirante Marcha da Maconha 2008 RJ/SP
Debate MTV Marcha da Maconha 2008
E veja este comentário:
ORLANDO ZACCONE
Delegado de polícia civil do Rio de Janeiro
Mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido Mendes
Doutorando em Ciências Políticas pela Universidade Federal Fluminense
“O quadro é desolador. De um lado a “guerra” contra as drogas matando mais do que as próprias drogas (grifo meu) e estabelecendo-se como uma política criminal irracional e genocída; do outro, cidadãos divididos entre a garantia do direito fundamental da livre expressão do pensamento e a autoritária instalação de um “estado de exceção permanente” em nosso país, na expressão do filósofo italiano Giorgio Agamben, referindo-se ao atual fenômeno da suspensão ininterrupta de direitos constitucionalmente estabelecidos nos assim chamados estados democráticos de direito. É neste contexto que se situam as recentes decisões judiciais de proibição das marchas em favor da legalização da maconha em diversos estados brasileiros e no distrito federal.” Leia mais »
Atenciosamente,
Rayllei Bandeira
Essa foi a primeira mensagem que ele me enviou. Li, captei o conteúdo, mas não respondi (apenas comentei com o meu namorado “nossa, lembra da notícia que vimos na Tv, sacanagem”).
Hoje outro e-mail, dessa vez mais surpreendente:
Depois que eu fiz uma pequena manifestação na Praça dos Girassóis no dia da posse do governador, tive a certeza de que a liberdade de expressão é muito frágil neste país. Fui sozinho com um cartaz do tipo homem-sanduíche escrito: “Apossaram-se dos frontispícios?” Frontispícios eram aquelas duas bolas que ficavam em cima do Palácio. Resultado: fui ameaçado várias vezes por um “chefão” que não se identificava e dois seguranças ficaram grudados em mim por onde eu fosse. Eles criaram uma linha imaginária, de onde eu não poderia passar. Todo e qualquer cristão (que irônico…) poderia ir mais a frente do auditório, mas eu deveria ficar isolado no fundo. Falei com os policiais que faziam uma fila, parados: “Esses rapazes estão cerceando meu direito constitucional de ir e vir e minha liberdade de expressão”, não falaram nada, me ignoraram. Tentei passar a força e ganhei belos empurrões. Então, mais tarde, um dos puxa-sacos com uma camiseta do tipo “Marcelo, amamos você” simplesmente rasgou meu cartaz e foi embora, impune. Nunca me senti tão desprotegido pela lei. Que lei é essa?! O cara me agride na frente de um batalhão de policiais e nada acontece a ele?! Se eu fizesse o mesmo seria preso, com certeza.
Tente falar o que pensa e verás que essa porcaria de lei é só fachada.
Revoltado,
Rayllei Bandeira
Dessa vez não me contive e respondi:
Rayllei,
quando vi na TV a marcha em prol da maconha pensei a mesma coisa que você. E a liberdade de expressão daquelas pessoas? Não é questão de concordar ou não com o tipo de movimentação, é questão de poder se expressar. Agora eu vejo a necessidade de se pensar nas conseqüências de qualquer ato… afinal, a liberdade individual, a liberdade de expressão existe até o ponto que não infrinja a liberdade social. É bom frisar que a nossa sociedade abomina as drogas e vi garotos fazendo apologia ao uso de maconha. Uma coisa leva a outra. Mas a polícia erra! Já parou para analisar quem são os policiais? Eles não recebem uma formação adequada. A única coisa que têm na cabeça é a prepotência que o poder lhes dá. É muito complicado,…. cada ação dessa exige uma imensa reflexão, que poucos são capazes de fazer (infelizmente!).
Quanto ao seu caso, bem vindo ao Toca!
Ou melhor, bem vindo ao mundo!!!
Eu não teria coragem de fazer o que fez, afinal, sou tímida e lerda… muito apolítica e nem um pouco “democrática”. Infelizmente, vivo trancada em meu individualismo (afinal, somos seres democráticos? duvido!).
Mas gostei da sua atitude… sempre gosto de pessoas que saem do casulo e gritam, lutam por seus direitos garantidos por lei.
Mas te digo uma coisa… duvido que seria diferente se você tivesse ido em qualquer outro Estado do país. Não é porque é o Toca (apesar do coronelismo ser forte aqui), é porque é o mundo do HOMEM. Não se pode ir contra o Governo!
Só isso.
Mas para finalizar essa reposta imensa, parabenizo sua atitude de sair do casulo. Afinal, seremos jornalistas…. e onde estará nossa função social se não abrirmos a boca?????????????????
Bruna Célia.
P.s. quero sua autorização para publicar nosso diálogo no meu blog. Inté!
Alguns minutos depois, recebo a resposta:
A maioria esmagadora dos manifestantes lutam pela
legalização da maconha, assim como já acontece na Holanda. Não se fala em legalizar drogas mais pesadas, pelo menos por enquanto. Além disso não há cartazes dizendo: “Use maconha que faz bem”, não. A marcha propõe uma mudança na lei, propõe um debate. Aliás, há muito o que se discutir sobre esse assunto, muito mesmo. Daria um belo debate na UFT, não é mesmo?
Falando em universidade, outro caso assustador foi de um estudante que passou um filme distribuído pela revista Superinteressante na UFMG. Ele foi preso por isso, você acredita? O filme se chama “Grass”, é um filme canadense que conta a história da proibição da maconha, nada de apologia. Consegui baixar pela internet, assisti e recomendo, muito bom. Se você quiser eu te passo por pendrive.
Veja o vídeo do estudante preso: http://br.youtube.com/watch?v=1QUMMRF_klo
E sobre a posse…
Bruna, quando li no seu e-mail “Não se pode ir contra o Governo!” eu lembrei da sensação de impotência que senti naquele dia. Pense comigo, ninguém estaria num dia 1º de janeiro pela manhã numa posse chata se não fosse pra puxar o saco do governador. Eu estava sozinho, totalmente sozinho. Tive medo de ser preso, ou de ser seguido e levar uma surra. Senti a mão de ferro do poder público. Não é brincadeira não. Mas valeu a experiência, pois aprendi bastante sobre a conduta do governo como um todo. Me conformar eu não vou nunca!
Claro que pode publicar no seu blog. Eu queria que mais gente ficasse sabendo, que mais gente acordasse pra realidade que está aí na nossa frente.
Você sabe que eu também sou muito tímido, mas naquele momento a indignação falou mais alto. Tive medo, mas sou um ser humano, sou mortal.
Abraço!
Rayllei
Então, finalizei de forma bem simples….
Eu quero ver o filme, viu?
Marcamos depois para eu pegar o filme e colocar no meu pen drive, ok?
e termino com a música:
“INDIGNA, INDIGNA… INDIGNA-NAÇÃO”
Bruna Célia.
O que dizer depois disso???????????
Será que alguém vai se indignar, gritar e lutar por soluções?
Espero que a veia do debate tenha sido aberta.
GRITEM!!!!!!!!!!!!
Não deixe que fechem sua boca!